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Voo Linguístico

Cinco meses antes da data prevista para entrar em vigor, o acordo ortográfico da língua portuguesa já é uma realidade.

Fruto do investimento de milhões de reais, estão chegando às livrarias brasileiras neste mês centenas de títulos - entre didáticos, paradidáticos e obras de referência - convertidos às novas regras, que já tomaram as salas de aula do Estado.

Para os que ainda duvidam que a forma de escrever o idioma vai mudar no dia 1º de janeiro de 2009, coroando esforços de unificação que se arrastam desde 1924, basta abrir um dos 60 mil exemplares do Minidicionário Houaiss da Língua Portuguesa à venda no país desde 1º de agosto e procurar verbetes como "lingüística", "vôo" e "heróico". Eles não estarão lá. Em seu lugar, entraram as formas novas "linguística", "voo" (por isso, o título desta página parece errado à primeira vista) e "heroico". A trema e o circunflexo em algumas formas verbais e em casos de duplo "o" foram abolidos.

Uma das primeiras obras com a grafia reformada, o Houaiss é uma manifestação concreta de que a mudança é para valer. A conversão da obra consumiu sete meses e R$ 500 mil.

- No dia 1º de janeiro, os dicionários que não contemplarem a reforma estarão automaticamente defasados. Nosso raciocínio, ao lançar o Houaiss adaptado, foi que não faria sentido alguém comprar um dicionário com vida útil de apenas quatro meses - explica o editor Roberto Feith.

Os editores correram para fazer esses lançamentos porque dão como certa a assinatura pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva do decreto que aplica o acordo a partir do ano que vem. Segundo Godofredo de Oliveira Neto, presidente da Comissão de Língua Portuguesa do Ministério da Educação (MEC), a previsão é que a assinatura ocorra em 29 de setembro, centenário da morte de Machado de Assis. Ele afirma que a seguir uma campanha nacional de esclarecimento será lançada.

Também se antecipando à reforma, professores de língua portuguesa começaram a ensinar as novas regras no Estado. No Colégio Vicentino Santa Cecília, de Porto Alegre, a novidade chegou em maio, quando a ratificação do acordo pelo Parlamento português levou o Brasil a movimentar as engrenagens da mudança. A professora Anna Regina Souza iniciou o trabalho levando aos alunos de 5ª e 6ª séries reportagens sobre o assunto.

- Achei melhor fazer isso agora porque esses estudantes já começaram a aprender as regras antigas e vão precisar se adaptar. Cada um deles vai produzir um pequeno livro aplicando a ortografia nova, para servir como um manual das mudanças - diz.

No Colégio Champagnat, também da Capital, estudantes de Ensino Médio compareceram na manhã de sexta-feira ao Laboratório de Informática e compararam na internet as diferenças entre textos portugueses e brasileiros. Os alunos deveriam avaliar o impacto que o acordo terá sobre os textos.

Transição vai até 31 de dezembro de 2012

Nas escolas estaduais, a nova ortografia deve ser ensinada em lugar da atual a partir do próximo ano letivo. Maria Teresa Rossi, da divisão de Ensino Médio da Secretaria Estadual da Educação, afirma que, mesmo existindo um período de transição no qual as duas formas serão válidas, não há razão para continuar a lecionar uma norma em vias de ser abolida.

- Seria marcar passo - defende.

Pela proposta de implantação do acordo elaborada pela comissão presidida por Oliveira Neto, a transição vai até 31 de dezembro de 2012. É um intervalo durante o qual a atual e a nova ortografia serão igualmente legais. Isso significa, por exemplo, que os estudantes poderão escrever as redações do vestibular com a forma ortográfica que preferirem. A PUCRS estuda até mesmo aceitar já em dezembro, quando realiza seu concurso, a nova ortografia na Redação.

No caso dos livros didáticos, os editores não tiveram a mesma folga para se adaptar. Por decisão do MEC, todos os livros de 1ª a 5ª séries distribuídos pelo governo federal nas escolas públicas já deverão ser na nova ortografia em 2010. Isso significa 80 milhões de exemplares reescritos. Como o processo de seleção dessas obras está ocorrendo neste ano, 1.239 títulos de 36 editoras já foram convertidos para poder participar da escolha. Pelas exigências do governo federal, os livros de 5ª a 9ª série deverão estar corrigidos em 2011, e os de Ensino Médio, em 2012.

A disputa pelo mercado do ensino privado também levou as editoras a se mexer. Como os estabelecimentos escolhem neste ano as obras que vão adotar no próximo, linhas inteiras de didáticos e paradidáticos estão sendo impressas com a grafia que só vai existir no ano que vem.
ITAMAR MELO

10/08/2008

Fonte: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=1&local=1&source=a2107266.xml&template=3898.dwt&edition=10446§ion=76